Machado
de Assis
COMO SE INVENTARAM OS ALMANAQUES
Come-te,
bibliógrafo! Não tenho nada contigo. Nem
contigo, curioso de histórias poentas. Sumam-se todos; o que vou contar
interessa a outras pessoas menos especiais e muito menos aborrecidas. Vou dizer
como se inventaram os almanaques.
Sabem
que o Tempo é, desde que nasceu, um velho
de barbas brancas. Os poetas não lhe dão outro nome: o velho Tempo. Ninguém o pintou de outra maneira. E
como há quem tome liberdades com os velhos, uns batem-lhe na barriga (são os
patuscos), outros chegam a desafiá-lo; outros lutam com ele, mas o diabo
vence-os a todos; é de regra.
Entretanto, uma coisa é barba,
outra é coração. As barbas podem ser velhas e os corações novos; e vice-versa:
há corações velhos com barbas recentes. Não é regra, mas dá-se. Deu-se com o
Tempo. Um dia o Tempo viu uma menina de quinze anos, bela como a tarde, risonha
como a manhã, sossegada como a noite, um composto de graças raras e finas, e
sentiu que alguma coisa lhe batia do lado esquerdo. Olhou para ela e as
pancadas cresceram. Os olhos da menina, verdadeiros fogos, faziam arder os dele
só com fitá-los.
- Que é isto? murmurou o
velho.
E os
beiços do Tempo entraram a tremer e o sangue andava mais depressa, como cavalo
chicoteado, e todo ele era outro. Sentiu que era amor; mas olhou para o oceano,
vasto espelho, e achou-se velho. Amaria aquela menina a um varão tão idoso?
Deixou o mar, deixou a bela, e foi pensar na batalha de Salamina.
As batalhas velhas eram para
ele como para nós os velhos sapatos. Que lhe importava Salamina? Repetiu-a de
memória, e por desgraça dele, viu a mesma donzela entre os combatentes, ao lado
de Temístocles. Dias depois trepou a um píncaro, o Chimborazo; desceu ao
deserto de Sinai; morou no Sol, morou na Lua; em toda parte lhe aparecia a
figura de bela menina de quinze anos. Afinal ousou ir ter com ela.
- Como te chamas, linda
criatura?
- Esperança é o meu nome.
- Queres amar-me?
- Tu estás carregado de anos,
respondeu ela; eu estou na flor deles. O casamento é impossível. Como te
chamas?
- Não te importe o meu nome;
basta saber que te posso dar todas as pérolas de Golconda...
- Adeus!
- Os diamantes de Ofir...
- Adeus!
- As rosas de Saarão...
- Adeus! adeus!
- As vinhas de Engaddi...
- Adeus! adeus! adeus! Tudo
isso há de ser meu um dia; um dia breve ou longe, um dia...
Esperança fugiu. O Tempo ficou
a olhar, calado, até que a perdeu de todo. Abriu a boca para amaldiçoá-la, mas
as palavras que lhe saiam eram todas de benção; quis cuspir no lugar em que a
donzela pousara os pés, mas não pôde impedir-se de beijá-lo.
Foi por essa ocasião que lhe
acudiu a idéia do almanaque. Não se usavam almanaques. Vivia-se sem eles;
negociava-se, adoecia-se, morria-se, sem se consultar tais livros. Conhecia-se
a marcha do sol e da lua; contavam-se os meses e os anos; era, ao cabo, a mesma
coisa; mas não ficava escrito, não se numeravam anos e semanas, não se nomeavam
dias nem meses, nada; tudo ia correndo, como passarada que não deixa vestígios
no ar.
- Se eu achar um modo de
trazer presente aos olhos os dias e os meses, e o reproduzir todos os anos,
para que ela veja palpavelmente ir-se-lhe a mocidade...
Raciocínio de velho, mas tudo
se perdoa ao amor, ainda quando ele brota de ruínas. O Tempo inventou o
almanaque; compôs um simples livro, seco, sem margens, sem nada; tão somente os
dias, as semanas, os meses e os anos. Um dia, ao amanhecer, toda a terra viu
cair do céu uma chuva de folhetos; creram a princípio que era geada de nova
espécie, depois, vendo que não, correram todos assustados; afinal, um mais
animoso pegou de um dos folhetos, outros fizeram a mesma coisa, leram e
entenderam. O almanaque trazia a língua das cidades e dos campos em que caía.
Assim toda a terra possuiu, no mesmo instante, os primeiros almanaques. Se
muitos povos os não tem ainda hoje, se outros morreram sem os ler, é porque
vieram depois dos acontecimentos que estou narrando. Naquela ocasião o dilúvio
foi universal.
- Agora, sim, disse Esperança
pegando no folheto que achou na horta; agora já me não engano nos dias das amigas.
Irei jantar ou passar a noite com elas, marcando aqui nas folhas, com sinais de
cor os dias escolhidos.
Todas tinham almanaques. Nem
só elas, mas também as matronas, e os velhos e os rapazes, juizes, sacerdotes,
comerciantes, governadores, fâmulos; era moda trazer o almanaque na algibeira.
Um poeta compôs um poema atribuindo a invenção da obra às Estações, por ordem
de seus pais, o Sol e a Lua; um astrônomo,. ao contrário, provou que os
almanaques eram destroços de um astro onde desde a origem dos séculos estavam
escritas as línguas faladas na terra e provavelmente nos outros planetas. A
explicação dos teólogos foi outra. Um grande físico entendeu que os almanaques
eram obra da própria terra, cuias palavras, acumuladas no ar, formaram-se em
ordem, imprimiram-se no próprio ar, convertido em folhas de papeI, graças...
Não continuou; tantas e tais eram as sentenças, que a de Esperança foi a mais
aceita do povo.
- Eu
creio que o almanaque é o almanaque, dizia ela rindo. Quando chegou o fim do
ano, toda a gente, que trazia o almanaque com mil cuidados, para consultá-lo no
ano seguinte, ficou espantada de ver cair à noite outra chuva de almanaques.
Toda a terra amanheceu alastrada deles; eram os do ano novo. Guardaram
naturalmente os velhos. Ano findo, outro almanaque; assim foram eles vindo, até
que Esperança contou vinte e cinco anos, ou, como então se dizia, vinte e cinco
almanaques.
Nunca os dias pareceram correr
tão depressa. Voavam as semanas, com elas os meses, e, mal
o ano começava, estava logo findo. Esse efeito entristeceu a terra. A própria
Esperança, vendo que os dias passavam tão velozes, e não achando marido,
pareceu desanimada; mas foi só um instante. Nesse mesmo instante apareceu-lhe o
Tempo.
- Aqui estou, não deixes que
te chegue a velhice... Ama-me...
Esperança respondeu-lhe com
duas gaifonas, e deixou-se estar solteira. Há de vir o noivo, pensou ela.
Olhando-se ao espelho, viu que
mui pouco mudara. Os vinte e cinco almanaques quase lhe não apagaram a frescura
dos quinze. Era a mesma linda e jovem Esperança. O velho Tempo, cada vez mais
afogueado em paixão, ia deixando cair os almanaques, ano por ano, até que ela
chegou aos trinta e daí aos trinta e cinco.
Eram já vinte almanaques; toda
a gente começava a odiá-los, menos Esperança, que era a mesma menina das quinze
primaveras. Trinta almanaques, quarenta,. cinqüenta, sessenta, cem almanaques;
velhices rápidas, mortes sobre mortes, recordações amargas e duras. A própria
Esperança, indo ao espelho, descobriu um fio de cabelo branco e uma ruga.
- Uma ruga! uma só!
Outras
vieram, à medida dos almanaques. Afinal a cabeça de Esperança ficou sendo um
pico de neve, a cara um mapa de linhas. Só o coração era verde como acontecia
ao Tempo; verdes ambos, eternamente verdes.
Os almanaques iam sempre caindo. Um dia, o Tempo desceu a ver a bela Esperança;
achou-a anciã, mas forte, com um perpétuo riso nos lábios.
- Ainda assim te amo, e te
peço... disse ele.
Esperança abanou a cabeça;
mas, logo depois, estendeu-lhe a mão.
- Vá lá, disse ela; ambos
velhos, não será longo o consórcio.
- Pode ser indefinido.
- Como assim?
O velho Tempo pegou da noiva e
foi com ela para um espaço azul e sem termos, onde a alma de um deu à alma de
outro o beijo da eternidade. Toda a criação estremeceu deliciosamente. A
verdura dos corações ficou ainda mais verde.
Esperança, daí em diante,
colaborou nos almanaques. Cada ano, em cada almanaque, atava Esperança uma fita
verde. Então a tristeza dos almanaques era assim alegrada por ela; e nunca o
Tempo dobrou urna semana que a esposa não pusesse um mistério na semana
seguinte. Deste modo todas elas foram passando, vazias ou cheias, mas sempre
acenando com alguma coisa que enchia a alma dos homens de paciência e de vida.
Assim as semanas, assim os
meses, assim os anos.
E choviam almanaques, muitos deles entremeados e
adornados de figuras, de versos, de contos, de anedotas, de mil coisas
recreativas. E choviam. E chovem. E hão de chover almanaques. O Tempo os
imprime, Esperança os brocha; é toda a oficina da vida.
M. DE
A.
"Almanaque
das Fluminenses", 1890, Rio de Janeiro, H. Lombaerts & Cia., págs. 9,
12, 15, 18, 21, 24.
Fonte: Contos
Avulsos - Machado de Assis - org. de R. Magalhães Júnior - Editora Civilização
Brasileira / Cia Brasileira de Livros - 1956